terça-feira, 17 de novembro de 2015

Um poema de Bernardim Ribeiro

Ontem Pôs-se o Sol

Ontem pôs-se o sol, e a noute 
cobriu de sombra esta terra. 
Agora é já outro dia, 
tudo torna, torna o sol; 
só foi a minha vontade, 
para não tornar c’o tempo! 

Tôdalas cousas, per tempo, 
passam, como dia e noute; 
ua só, minha vontade, 
não, que a dor comigo a aterra; 
nela cuido em quanto há sol, 
nela enquanto não há dia. 

Mal quero per um só dia 
a todo outro dia e tempo, 
que a mim pôs-se-me o sol 
onde eu só temia a noute; 
tenho a mim sôbre a terra, 
debaxo minha vontade. 

Dentro na minha vontade 
não há momento do dia 
que não seja tudo terra; 
ora ponho a culpa ao tempo, 
ora a torno a pôr à noute: 
no milhor pon-se-me o sol! 

Primeiro não haverá sol 
que eu descanse na vontade. 
Pon-se-me ua escura noute 
sôbre a lembrança de um dia... 
Inda mal porque houve tempo 
e porque tudo foi terra. 

Haver de ser tudo terra 
quanto há debaixo do sol 
me descansa, porque o tempo 
me vingará da vontade; 
se não que antes dêste dia 
há-de passar tanta noute! 

Bernardim Ribeiro, in 'Antologia Poética' 

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